Conspiração no Japão? Japan National Railways pode ter mudado política

Alguns mistérios no Japão são tão conturbados que aparentemente nunca teremos uma resposta definitiva, porém, alguns deles alteraram significativamente a história do país.

Entre esses mistérios estão três casos envolvendo a JNR (Japan National Railways) durante o verão de 1949.

Os três episódios resultaram na morte de dez pessoas e podem ter sido determinantes para a formação política, econômica e social do Japão nos dias de hoje.

Embora não exista nenhuma investigação oficial que afirme essa hipótese, todas as evidências apontam para uma conspiração envolvendo políticos japoneses e a ocupação estadunidense após a segunda guerra mundial.

Cronologia

Antes de compreender os casos envolvendo a JNR, é importante observar o contexto histórico do Japão durante os anos de 1945 a 1952.

Durante esse período, a ocupação americana teve como objetivos principais desmilitarizar seu antigo inimigo e democratizar o país com um modelo ocidental pró-americano.

Ainda que o sistema político japonês adotado tenha sido o parlamentarismo, todos os aspectos da esfera pública estava alinhado aos modelos ocidentais.

Além das reformas políticas, houve reforma agrária, a supressão do antigo zaibatsu (conglomerados empresariais) e o impedimento de um exército nacional decretado pela nova constituição.

Mas a partir de 1947, o foco dos americanos e dos políticos do Partido Liberal Democrático foi a ameaça comunista do JCP (Partido Comunista do Japão).

Afinal, nas eleições de janeiro do mesmo ano, o número de representantes da JCP na Dieta japonesa saltou de 4 para 35 cadeiras.

Por fim, o objetivo dos conservadores e dos americanos era impedir uma revolução comunista como a ocorrida na União Soviética e a que estava acontecendo na China.

Mas quando Joseph Dodge, um economista estadunidense, impôs ao Japão uma política de austeridade econômica em 1949, o JCP ganhou força.

Quando a política de austeridade reduziu o orçamento com gastos públicos e elevou os impostos no país, 30 mil trabalhadores da JNR foram demitidos na mesma semana.

O homem responsável (ou melhor, forçado) por essas demissões em massa foi Sadanori Shimoyama.

O incidente de Shimoyama

Shimoyama era um homem nativo de Hyogo conhecido por sua diligência e havia sido nomeado presidente da Japan National Railways pouco mais de um mês antes da demissão em massa.

Mas na manhã de 05 de julho de 1949, Sadanori Shimoyama pediu a seu motorista que o esperasse no estacionamento da loja de departamento Mistukoshi.

Ao meio dia, do dia seguinte, o corpo de Shimoyama foi encontrado mutilado nos trilhos da linha Joban entre as estações Kita-Senju e Ayase.

Os policiais que estiveram no local disseram haver duas possibilidades: homicídio ou suicídio.

Já para o inspetor médico que foi até o local, a situação apontava para um suicídio causado pelo estresse das demissões em massa.

Mas o laudo da necropsia apontou que Shimoyama já estava morto quando seu corpo foi mutilado por um trem.

As versões oficiais da época apontavam para grupos de esquerda e comunistas como responsáveis pelo assassinado motivado pela vingança aos trabalhadores desempregados.

Porém, muitos historiadores e até mesmo boa parte dos japoneses da época acreditavam que o presidente da JNR foi vítima de um complô entre o governo japonês e americano para enfraquecer o Partido Comunista do Japão.

O argumento que sustentou essa acusação baseava-se nas diversas cartas ameaçadoras de ex empregados insatisfeitos com a demissão que Shimoyama recebeu.

De qualquer forma a investigação foi inconclusiva e não haviam quaisquer provas que pudessem indiciar alguém pelo crime.

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O descarrilamento de Mitaka

Depois de poucos dias após a misteriosa morte do presidente da Japan National Railways, uma segunda onda de demissões atingiu aproximadamente 63 mil trabalhadores japoneses.

Na mesma semana das demissões em massa, na noite de 15 de julho, um trem não tripulado e com as alavancas de operações amarradas com cordas colidiu com a estação Mitaka.

Como resultado, seis pessoas morreram e 20 ficaram feridas. Os sindicatos dos ferroviários foram acusados e das 10 pessoas indiciadas pelo crime, apenas uma não pertencia ao JCP.

Um homem chamado Keisuke Takeuchi foi acusado de planejar e executar sozinho o plano, os juízes o condenaram a prisão perpétua e posteriormente a morte por enforcamento.

Takeuchi confessou o crime em depoimento para a polícia, mas acredita-se que a confissão aconteceu por meio de tortura. Os outros acusados foram liberados.

O descarrilamento de Matsukawa

Em agosto de 1945, três tripulantes da locomotiva a vapor C511 morreram após o trem descarrilar entre as estações de Kanayagawa e Matsukawa.

A investigação da polícia descobriu que porcas e parafusos foram afrouxados e os espigões removidos, dessa vez, dez sindicalistas e dez trabalhadores de uma fábrica local foram indiciados. O caso levou quatro dos réus a pena capital.

Consequências diretas

Estudiosos do período acreditam ser possível que todos esses estranhos incidentes tenham sido executados pelo governo japonês e a ocupação americana no Japão.

O que os levam a acreditar nessa hipótese é a fraca oposição que o Partido Liberal Democrático do Japão enfrenta na Dieta até os dias de hoje.

Além disso, os movimentos sindicais e o Partido Comunista do Japão perderam força e atuação após os incidentes.

De qualquer forma, esses mistérios dificilmente serão resolvidos e ficarão apenas no campo especulativo.

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