7 Detalhes curiosos sobre a vida dos pilotos Kamikaze

Kamikaze” (神風) foi o nome atribuído aos pilotos de aviões japoneses que, carregando explosivos, promoveram ataques suicidas contra os navios dos Aliados (Estados Unidos, Reino Unido e União Soviética), especialmente os estadunidenses. As ações ocorreram principalmente no ano de 1944, momentos finais da campanha do Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945).

A palavra japonesa “kamikaze” traduz-se como “vento divino”, em referência às tempestades que salvaram o Japão do ataque mongol em duas ocasiões (1247 e 1281). O nome oficial era “Tokubetsu Kōgekitai” (Unidade de Ataque Especial), também conhecido pela abreviação “Tokkōtai” ou “Tokkō“.

A prática de tais ataques suicidas foi inserida em uma época em que os militares do Império Japonês estavam em crise. No ataque à Pearl Harbor em 1941, os japoneses possuíam tecnologia superior aos norte-americanos. No entanto, dois anos depois, a situação inverteu-se.

No ano de 1944, o Japão sofreu diversas baixas de aviões. Desesperados com o desfecho que os confrontos militares estavam tomando, foi determinado a organização de ataques suicidas fortemente armados com bombas à porta-aviões inimigos.

Aproximadamente 2.800 pilotos kamikaze morreram durante a guerra, causando a morte de aproximadamente 4.900 marinheiros inimigos. Os ataques japoneses conseguiram afundar 34 navios e danificar outros 368.

pilotos kamikaze
Cabo Yukio Araki segurando um filhote de cachorro, com outros quatro pilotos da 72ª Shinbu Squadron em Bansei, Kagoshima (26 de maio de 1945). Araki morreu no dia seguinte, aos 17 anos, em um ataque suicida perto de Okinawa. (Crédito: Wikipedia)

Contudo, estes fatos são apenas parte da história. Estes pilotos são muitas vezes considerados nada mais do que fanáticos, mas a verdade é bem mais perversa. A vida de um piloto kamikaze foi tão difícil quanto curta. Confira algumas curiosidades sobre a vida destes homens:

1 – Todos os pilotos kamikaze eram voluntários, mas não realmente

Kamikaze
Pilotos Kamikaze em meados de 1945. (Crédito: Naval History and Heritage Command)

A maioria dos pilotos kamikaze eram estudantes recrutados de universidades. Enquanto alguns se voluntariaram entusiasticamente, isso nem sempre foi o caso. Difundia-se a ideia de que o suicídio era uma escolha e não imposição por parte do Império japonês. No entanto, não era bem isso que ocorria.

A pressão para se voluntariar foi intensa. A ditadura militar japonesa da época difundia a ideia: “morte antes da rendição”. Documentos mostram que o discurso extremamente patriótico promovido pelo Estado aliado às ideias de sacrifício pelo imperador e ao sentimento de culpa enquanto seus compatriotas morriam, formavam uma boa estratégia de convencimento.

No dia em que os soldados eram chamados para anunciar se queriam ser voluntários, pouquíssimos desafiavam a pressão das autoridades e tinham a coragem de sofrer as consequências desse ato considerado covarde. Em muitos casos, aqueles que não se voluntariavam eram discriminados e mal visto pela sociedade.

Segundo relatos, ao alistar-se, muitos pilotos kamikaze tinham em mente o desejo pelo fim da guerra e pela proteção de seus entes queridos. Dessa forma, na realidade, morrer pelo imperador não era o objetivo da maioria. Outro aspecto a se considerar era que morrer com honra tratava-se de algo cultural no Japão.

Apesar da imagem de fanáticos, muitos antropólogos negam as comparações com homens-bomba islâmicos, já que os japoneses eram recrutados pelo exército do país e não tinham como alvos civis.

2 – Soldados japoneses foram ensinados a se matar em vez de serem capturados

USS Bunker Hill
USS Bunker Hill, que foi atingido por dois kamikazes em 11 de maio de 1945, causando 346 mortes. (Crédito: Wikipedia)

Para os japoneses, a captura pelo inimigo era mais temida do que a própria morte. Uma das primeiras lições passadas aos recrutas, era como se suicidar com seus rifles, provocando uma morte instantânea. Dessa forma, os kamikazes deviam sempre carregar uma pistola – para o caso de falharem e terem de evitar a captura.

3 – Antes de ir à missão, os pilotos Kamikaze ganhavam uma bebida

cerimônia bebida
(Crédito: Wikimedia Commons)

Antes de embarcarem em seus aviões, os pilotos kamikaze se alinhavam e ganhavam um brinde de saquê (ou água) em uma cerimônia especial.

Além disso, quando chegava o dia do voo para a morte, geralmente os pilotos amarravam o hachimaki (faixa) na cabeça e usavam o senninbari (cinto costurado por mil mulheres – espécie de amuleto). Muitos também escreviam poesias, seguindo o exemplo dos samurais condenados a cometer seppuku, o suicídio honroso.

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4 – Os pilotos escreviam uma carta a ser enviada aos pais quando completassem sua missão

Um dos últimos atos de um piloto kamikaze também era escrever uma carta de despedida aos pais, para serem lidos após a conclusão da missão.

Piloto Kamikaze Kiyoshi Ogawa
Piloto Kamikaze Kiyoshi Ogawa. (Crédito: Kamikaze Images)

Kiyoshi Ogawa é um piloto cuja carta de despedida sobrevive até hoje. Em tradução aproximada, lê-se:

Pai e mãe,

Foi decidido que eu também farei um ataque como um orgulhoso membro da Unidade de Ataque Especial. Olhando para trás, quando penso que vocês me criaram por mais de vinte anos, sinto-me cheio de gratidão. Eu realmente acredito que ninguém mais viveu mais feliz do que eu e estou decidido a retribuir ao imperador e ao meu pai pela bondade.

Além dessas vastas nuvens brancas, farei meu ataque com um sentimento de calma. Nem mesmo pensamentos de vida e morte virão à mente. Uma pessoa morre uma vez. Será um dia digno de vida para a causa eterna.

Pai e Mãe, fiquem felizes por mim.

Acima de tudo, mãe, cuide da sua saúde e eu desejo a prosperidade de todos. Como eu estarei no Santuário de Yasukuni, Pai e Mãe, eu sempre e para sempre estarei morando perto de vocês e estarei orando pela felicidade de vocês.

Eu vou sorrir, tanto no dia da minha saída como para sempre.

Ogawa, aos 22 anos, atacou o porta-aviões da USS Navy Bunker Hill. O ataque kamikaze matou 393, feriu 264 e tirou o porta-aviões de atividade durante o período da guerra.

5 – Punição corporal foi desenfreada no exército japonês

 exército japonês
(Crédito: Divulgação)

Um piloto kamikaze chamado Irokawa escreveu em seu diário (tradução aproximada):

Depois de passar pelo portão para entrar na Base Aérea Naval Tsuchiura, o “treinamento” ocorreu dia após dia. Eu fui atingido no rosto com tanta força e frequência que meu rosto ficou irreconhecível. Em 2 de janeiro de 1945, Kaneko atingiu meu rosto vinte vezes e o interior da minha boca foi cortado em muitos lugares pelos meus dentes. Eu estava ansioso para comer zōni (um prato especial com bolos de arroz para o Ano Novo). Em vez disso, estava engolindo sangue do interior da minha boca.

Em 14 de fevereiro, todos nós fomos punidos porque suspeitavam que tivéssemos comido nas casas dos fazendeiros perto da base para amenizar nossa fome. No meio do inverno frio, fomos obrigados a sentar-se por sete horas em um chão de concreto frio e nos atingiram nas nádegas com um porrete. Então, cada um de nós foi chamado para o quarto do oficial. Quando chegou a minha vez, assim que entrei na sala, fui atingido tão forte que não pude mais ver e cai no chão. No instante em que me levantei, fui atingido novamente por um taco para que eu confessasse. Um amigo meu foi jogado com a cabeça no chão, perdeu a consciência e foi enviado para um hospital. Ele nunca voltou. Toda essa selvageria foi orquestrada pelo comandante do corpo chamado Tsutsui. Ainda estou procurando por esse sujeito.

6 – O problema do motor salvou as vidas de alguns pilotos Kamikaze

Falha avião
(Crédito: Wikimedia Commons)

Os pilotos só deveriam lançar os seus aviões aos navios americanos se as condições de tempo estivessem boas, já que eles eram instruídos a não desperdiçar suas vidas se não fosse com o objetivo de impactar o inimigo de modo bem sucedido.

Os pilotos também foram instruídos a desviar e tentar retornar em caso de falha do motor ou problemas mecânicos. À medida que as missões usavam cada vez mais aeronaves antigas e desatualizadas, isso se tornou cada vez mais comum.

Takehiko Ena era um kamikaze que sobreviveu à várias missões desta maneira. Ele fazia parte de uma equipe de três pilotos durante a Operação Kikusui, uma campanha de bombardeio suicida durante a batalha de Okinawa.

Em sua primeira missão, não foi possível realizar a decolagem. Em sua segunda missão, problemas no motor forçou-o a fazer um pouso de emergência. Em sua terceira e última missão, novamente o problema do motor forçou outro pouso de emergência, desta vez no mar.

7 – Os pilotos Kamikaze acreditavam que se encontrariam novamente no santuário Yasukuni

santuário Yasukuni
Santuário Yasukuni. (Crédito: flickr)

O Santuário Yasukuni foi construído em 1869 por ordem do Imperador Meiji, a fim de homenagear àqueles que morreram nas guerras do Japão. Este seria o lugar de descanso terreno daqueles que morreram à serviço do imperador e do país. Atualmente, o local abriga 2.466.000 divindades, soldados que morreram em várias guerras japonesas. Os pilotos Kamikaze acreditavam que suas ações lhes renderiam um lugar no santuário, onde eles se reuniriam com seus ex-companheiros.

Você já conhecia estes fatos tristes e curiosos?

Fonte: Ranker, Wikipedia, Aventuras na História

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