Por dentro do cotidiano e regras da prisão de Fuchu

O sistema carcerário do Japão é conhecido por ser bem rigoroso. O objetivo é estabelecer os indivíduos a se tornarem aptos ao convívio em sociedade.

Existem cerca de 51.805 presos distribuídos em 188 instituições no país. Cada uma com características distintas. Uma delas, conhecida por ser uma das mais rigorosas é a prisão de Fuchu.

Prisão de Fuchu

Fachada da prisão de Fuchu

A prisão de Fuchu recebe em sua maioria os criminosos incidentes e os estrangeiros É uma das maiores do Japão e seu cotidiano já foi filmado para um documentário francês (Life in a Japanese Prison) em raras imagens.

Abriu em 1935 e tem a capacidade para 2.842 presos. Os prisioneiros que vão parar em Fuchu são variados. Tem desde estrangeiros que foram presos por porte de drogas a membros da Yakuza.

Regras

guardas e prisioneiros da prisão

Antes de entrar em convívio com os outros prisioneiros todos passam por um treinamento. Nele, aprendem todas as regras e maneiras de se portar.

treinamento na prisão

Como falar, andar, entre outros, seguem um padrão rígido. Um livro com regras é entregue e tudo é seguido a risca.

Guardas sem arma

Bastão de guarda

Os guardas não carregam armas de fogo. Eles apenas levam um bastão retrátil para segurança pessoal. Apesar disso, eles são treinados em artes marciais e todos são capazes de imobilizar e se defenderem.

Disciplina, ordem e confiança

corredor da prisão de Fuchu

A relação deve ser a base de confiança. Além disso, todos os passos são cronometrados e as tarefas devem ser feitas no tempo limite com disciplina e ordem.

O andar é em marcha na prisão de Fuchu. As celas são revistadas todos os dias (em vários momentos) e os presos devem ficar na mesma posição e fazer os mesmos movimentos em completo silêncio.

Trabalho obrigatório

Prisioneiros se apresentando para o trabalho

O trabalho é obrigatório e tudo é sincronizado. Além disso, cada passo é feito em conjunto sob a supervisão de poucos guardas.

Alguns trabalham montando sacolas ou móveis. Os serviços são diversos e várias empresas japonesas são conveniadas.

O pequeno salário volta ao sistema carcerário, pois toda a estadia é paga pelo preso. O ambiente é de cooperação.

Solidão

Para viver e ter um convívio na prisão é preciso muito foco e manter a mente firme. Já que o contato é limitado e a interação é permitida apenas por poucos minutos depois do almoço.

Os condenados estrangeiros tem celas adaptadas e não podem dividir com ninguém. Apenas os japoneses podem ganhar a permissão para conviverem juntos em celas de 4 a 5.

Construção de caráter

No livro chamado handbook for life in prison de Fuchu (livro para a vida na prisão de Fuchu [disponível em inglês]), as regras são claras e o objetivo descrito é construir o caráter e ajudar a tornar as pessoas em membros saudáveis da sociedade novamente.

Em um dos trechos: “(Acordar) [1] Com o soar dos alarmes, você deve levantar e fazer a cama, se lavar, arrumar e esperar pela inspeção de cela. Durante esse tempo deve-se mover suavemente e em prontidão. [2] Se sair da cama, se lavar ou ler antes da hora você pode atrapalhar o sono dos outros  e causar problemas.”

As regras se extendem e são específicas para todas as situações do cotidiano na prisão. Algumas gerais ensinam que na vida em comunidade não há espaço para o egoísmo.

Outros trechos: “Deve-se refletir sobre as condutas passadas e pensar em como o tempo na prisão pode ser uma experiência útil nos planos futuros.”

“Para manter a harmonia das relações humanas e a vida em grupo, você deve reconhecer que cada pessoa tem uma personalidade diferente, diferentes crenças, histórias, vieram de diferentes condições de vida, e um diferente motivo para estar preso. Você deve sempre tentar entender a posição da outra pessoa e respeitar.”

Rotina

Toda a rotina tem um cronograma seguido por todos. Eles acordam 6hs50min. A partir desse horário até 7hs10min, os prisioneiros devem lavar o rosto, limpar e arrumar a cela para o café da manhã e inspeção.

Café da manhã

Prisioneiro comendo café da manhã

O desjejum é servido pontualmente as 7hs10min e os prisioneiros tem 25 minutos para comer e limpar a mesa. 7hs35min eles devem seguir para o trabalho.

Trabalho

Trabalho na prisão

8hs o trabalho começa metodicamente. Os presos trocam de roupas, se exercitam no estilo rádio taiso, ouvem e repetem discurso do guarda chefe.

Sim, para obediência;

Desculpas com sincero arrependimento;

Agradecimento com humildade;

Benevolência e servicibilidade;

Obrigado do fundo do coração;

A média é de um guarda cuidando de 80 presos. O clima deve ser de respeito e cordialidade entre os presos na hora do trabalho. 9hs45min é feita uma pausa até 10hs.

Almoço

12hs é o horário de almoço e dura 45 minutos segundo o livro de regras da prisão. No documentário francês, segundo relato de um ex-prisioneiro, eram destinados 15 minutos para comer em silêncio, oito eram destinados a poder interagir conversando em voz baixa.

Todos se servem e são responsáveis por deixar tudo limpo. Eles voltam ao trabalho 12hs40 e a próximo descanso acontece 14hs30min até 14hs45min. O expediente encerra 16hs40min.

Volta a cela

Até as 17hs15min todos devem ter retornado aos seus aposentos. Uma última inspeção é feita e dura até 17hs25min.

Nesse horário, o jantar é servido e dura até 17hs55min. 18hs eles devem deitar e as luzes são apagadas às 21hs.

Comida

A comida é fracionada. As calorias são contadas e três tipos de cardápio são oferecidos de acordo com o trabalho.

Quem fica sentado recebe menos aporte calórico. Na prisão de Fuchu há quem trabalhe com madeira, em costura, peças mecânicas, manejando couro, entre outros.

O menu A tem 1.650 calorias e é dado aos prisioneiros que trabalham mais e em funções mais pesadas. O menu B é para quem fica sentado no computador. O menu C é oferecido a quem trabalha na cela. Com muitos estrangeiros, pão é ofertado em vez de arroz branco.

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Segundo relato de um ex-prisioneiro francês chamado Philippe Fatin que ficou na prisão de Fuchu, foi muito difícil enfrentar tantas regras.

Porém, a adaptação foi fundamental para conseguir suportar três anos de condenação. Preso no aerporto em Tokyo com 1kg de maconha preso ao peito, admite que passar um tempo na prisão japonesa o ensinou ser organizado e mais disciplinado.

Além disso, relata que nunca sentiu medo em sua estadia e existia respeito entre todos. Fator fundamental para não ter violência, já que alguns de seus colegas eram considerados perigosos.

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