Morte solitária: a dura realidade dos idosos no Japão

Não é novidade para ninguém que o Japão é o país com o maior número de centenários do mundo, mas não para por aí.

Um quarto da população japonesa é composta por idosos no Japão. A projeção é que em 2055 eles representem 40% da população.

Realidade dos idosos no Japão

É comum encontrar matérias romantizadas sobre a longevidade dos japoneses. No entanto, a realidade pode ser muito mais dura do que se imagina. Viver muito nem sempre é sinônimo de viver bem.

A estrutura familiar tradicional japonesa ainda é muito forte dentro da sociedade, encontrar diferentes gerações vivendo sob o mesmo teto é normal e durante muito tempo, as casas para repouso era o destino de idosos abandonados por suas famílias.

Mas o mundo vive em constante transformação e nem a tradição japonesa está imune as mudanças provocadas pelo mercado e as relações entre ele e a sociedade.

Relação com o trabalho

Overwork é uma realidade no Japão e a maioria dos profissionais japoneses trabalham seis dias e têm apenas um de descanso. Além disso, as mulheres estão cada vez mais presentes no mercado de trabalho.

Muitas coisas mudaram no país após a segunda guerra mundial. Em 1950 a população com mais de 65 anos representava 5% da população. Atualmente representa 25% e o número não para de subir.

Quem cuida dos idosos?

Idoso no Japão
Créditos: reprodução

A pergunta é: quem cuida dos idosos no Japão? Não há respostas simples para essa questão e infelizmente os dados não são promissores.

Em tese, de acordo com a tradição japonesa e a moralidade ética confucionista, é papel dos mais jovens cuidar dos mais velhos e não do estado.

Trabalho x dinheiro x tempo

Porém as relações trabalhistas modificam a estrutura familiar. A maioria dos japoneses precisam trabalhar e muito para conseguirem pagar suas contas e viver relativamente bem, em suma, a sociedade japonesa não é uma sociedade de ricos.

A maioria dos japoneses são trabalhadores, são poucos os que nascem em famílias ricas que têm condições de bancar uma pessoa para cuidar de seus idosos ou ter tranquilidade financeira para contratar alguém.

Midori Ide é a representação das 177.600 pessoas com faixa etária entre 15 e 29 anos que cuidam de algum familiar idoso. Em entrevista para a BBC em 2015 ela revelou cuidar de sua avó de 96 anos.

Na época aos 29 anos ela vivia dividida entre seu trabalho e cuidar de sua avó: “É um dilema, mas preciso ganhar dinheiro porque minha família não é rica” afirmou.

Midori trabalhava em uma casa de repouso e só podia passar um dia da semana com sua avó. “Eu também quero continuar trabalhando porque desde que meu avô morreu quando tinha 15 anos, decidi me tornar uma trabalhadora e esse é meu chamado”, continuou.

Apesar de amar sua avó existe um custo pessoal em cuidar dela. “Eu não quero que minha avó ouça isso, mas eu tenho quase 30 anos e me preocupo se eu poderei começar minha própria família um dia”.

O sonho de Midori era viajar para o exterior, ela também sentia falta de passar mais tempo com seus amigos, mas isso significaria deixar sua avó sem o auxílio tão necessário.

Medidas do governo

Para contornar a situação que cresce em ritmo alarmante, o governo japonês precisou tomar medidas para tentar remediar a situação. Uma delas é a bonificação de médicos e enfermeiros que fazem visitas nos domicílios de idosos.

idoso no Japão em casa
Médico: Yuu Yasui/ Paciente: Yasuhiro Sato,

Outra solução foi hospitais do país disponibilizaram milhares de leitos a longo prazo para os idosos. Os “hóspedes” devem arcar entre 10% e 20% das despesas médicas, um valor acessível.

Idosos no Japão
Créditos: reprodução

Porém existe um enorme dilema ético, econômico e humano. Morrer em um hospital é muito triste e quando os idosos têm alguma complicação, os médicos se esforçam ao máximo para mantê-los vivos.

Dilema

Mas muitos idosos não querem continuar vivos, principalmente por estarem sozinhos em hospitais que não possuem o que eles desejam: carinho. Enquanto os familiares agradecem pela vida, os idosos pedem para partir.

Economia

O problema econômico também é gravíssimo. Apesar de ser a terceira maior economia do mundo, o Japão é o segundo país com a maior dívida pública atrás apenas dos EUA (que é o país mais endividado da história da humanidade).

Isso gera um grave problema para investimentos sociais, já que manter a economia aquecida e pagar a enorme dívida (238,1% do PIB em 2015) depende de um delicado equilíbrio.

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Recursos humanos

Aí entramos no problema humano, ou melhor, recursos humanos. Para atender aos idosos do país será necessário ao menos um milhão de enfermeiros e cuidadores até 2025 e cerca de 10 milhões de imigrantes para elevar a taxa de natalidade no país.

Novamente o problema ético entra no problema de recursos humanos. O Japão é o país mais hegemônico do mundo com menos de 2% de imigrantes na sociedade. Existe a resistência do governo e da população em abrir as portas para os imigrantes.

Cuidadores estrangeiros

A resistência é forte, muitos japoneses se sentem extremamente ofendidos em serem atendidos por quem não domina por completo o idioma japonês.

Muitos cidadãos usam o exemplo da imigração na Europa como exemplo. No entanto, desde a abertura com o Ocidente na era Meiji, o Japão manteve sua hegemonia étnica.

Além disso, estrangeiros que se candidatam a trabalhar na área da saúde no país (ou qualquer outra profissão técnica) deve prestar uma prova dificílima de japonês para serem aptos a trabalhar.

Tão difícil que até 2015 apenas 304 enfermeiros e cuidadores estrangeiros conseguiram um visto de trabalho e residência no Japão.

Idoso no Japão
Créditos: reprodução

Enquanto isso o problema continua crescendo. É comum encontrar idosos cuidando de idosos. Estima-se que em um futuro não muito distante a situação se tornará insustentável.

Ou a sociedade japonesa encontrará uma forma de conviver em harmonia com estrangeiros sem perder sua identidade ou estará fadada a sofrer as consequências de optar pela hegemonia étnica do país.

Qual a solução na opinião de vocês?

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